quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Guarapuavanos mantêm tradição de velar familiares em domicílio


No mês de abril, 14 dos 84 velórios registrados pela Central de Triagem ocorreram em residências. 


Pela comodidade, economia ou tradição, algumas famílias guarapuavanas ainda optam por fazer o velório de seus entes queridos no próprio endereço residencial do falecido ou de algum parente próximo. De acordo com o chefe de divisão da Central de Triagem e Cemitérios, Edson Pires Machado, cerca de 20% dos velórios mensais em Guarapuava são realizados em domicílios. O restante é dividido entre capelas e igrejas, com menor porcentagem para última. 

Guarapuava possui nove cemitérios municipais e um particular. Quanto ao número de capelas, o município conta com três espaços, localizados nos bairros Santa Cruz, Batel e Primavera. Algumas funerárias da cidade também possuem suas próprias capelas particulares. Quando uma família decide velar um falecido em casa, ela deve procurar uma funerária privada, pois o município não é responsável por esse serviço. “Eu acho que velar em casa ainda é uma tradição, mas já diminuiu agora com as capelas”, comentou o chefe de divisão. 

Segundo o inspetor sanitário Alexandre Fernando de Sousa, as funerárias de Guarapuava são fiscalizadas de acordo com o Código de Saúde do Estado do Paraná. Esse código não possui nenhuma restrição contra velórios em ambiente residencial, desde que o óbito seja atestado por autoridade médica e o falecido não possua doenças contagiosas ou esteja em estado adiantado de decomposição, salvo os casos em que se realizou com eficácia os serviços de conservação de cadáver. 

Há 13 anos, quando faleceu o pai da auxiliar administrativa Fernanda Miranda, 26, a família escolheu a própria casa no loteamento Vila Mariana, no bairro Alto Cascavel, para fazer o velório. A esposa optou por velar na casa porque seria algo mais íntimo da família e dos amigos do falecido. Outros integrantes da família mantêm esse costume. “Irmãos dos meu pais também faleceram e as esposas e filhos decidiram por fazer os funerais em casa”, disse Fernanda. 

FUNERÁRIAS 

Rafael José Cooper, 28, é proprietário de uma funerária localizada no bairro Santa Cruz e conta que a maioria das famílias escolhem as capelas. “Normalmente preferem velar na casa quando é uma pessoa de um bairro mais afastado ou do interior”. Rafael pondera que para velar em capelas particulares é cobrado um aluguel, mas no próprio domicílio a família não tem esse gasto. O caixão, as flores e a preparação do corpo são cobrados a parte. 

O agente funerário Jair Macedo, 65, trabalha em outro estabelecimento de Guarapuava e revela que é mais difícil organizar velórios em domicílios. “Para nós, funcionários, é bom quando é na capela. Se a casa tem escada é pesado para carregar o corpo, fica difícil para subir e descer, podemos cair e nos machucar. A capela já tem o lugar certo para colocar a coroa e o caixão”. Mesmo com os empecilhos, a funerária organiza em média dois velórios em residência por semana. ”Deveria ser proibido. É comodismo do povo”, finalizou Jair. 

HISTÓRIA 

O presidente do Instituto Histórico de Guarapuava, Ariel José Pires, conta que a cultura de velar corpos em ambiente doméstico começou há muito tempo, quando nossos ancestrais primatas já praticavam essa tradição nas cavernas em que viviam. No entanto, os primeiros registros desse costume são do início da Idade Média na Europa. A classe mais abastada também velava em casa e colocava o falecido na mesa ou no caixão. 

“Durante muitos anos, o corpo era velado durante 48 horas porque era comum cessar a atividade cerebral e o coração parar, mas a pessoa não morrer definitivamente. Aconteceu isso com a minha bisavó, quando ela tinha 95 anos. Durante o velório em casa, ela acordou e viveu mais dez anos”, relembrou. “Na Idade Média, eles faziam um furo na tampa do caixão e amarravam uma cordinha na mão do defunto com um sino para fora”. 

Dentro de uma classificação sociológica, Ariel acredita que a classe mais baixa é a responsável por manter esse costume de fazer velório em domicílio. “Velar em casa supõe economia, até pelo próprio deslocamento. Você pode levar na capela mortuária que não tenha taxa, mas a pessoa já pensa em comprar um caixão melhor e em casa não tem essa preocupação. O ato de se velar em casa pode remeter a proximidade com a pessoa, mas eu vejo como uma questão econômica e um costume que ainda se preserva.” 

INTERIOR 

A família da psicóloga Elisandra Zaiacz Rios, 23, reside em uma localidade no interior de Prudentópolis, onde não há capela mortuária e todos os velórios acontecem na casa do falecido ou de algum parente, com exceção de casos pontuais em que não há espaço para velar na residência e a igreja da comunidade disponibiliza seu pavilhão. 

Ela lembra que quando seu tio faleceu ainda jovem, com 23 anos, foi uma surpresa para toda família e a comunidade. O corpo foi levado para casa da mãe dele, onde os vizinhos mais próximos estavam reunidos desde que souberam da fatalidade. 

“A cultura do local é prestar auxílio à família neste momento de luto. Os vizinhos costumam ajudar na limpeza da casa, na preparação de alimentos e acompanhar todo o processo do velório. Acredito que com isso os laços familiares e comunitários sejam fortalecidos e a identidade individual seja preservada até o último momento neste ritual de despedida”, comenta a psicóloga.

Fonte: Agência Centro Sul 

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